A dança como uma forma de Terapia Complementar

A origem da dança é tão remota como a própria humanidade, praticada desde o período do Paleolítico até os dias atuais, sendo que a sua popularidade só aumenta a cada dia, o que tem levado os estudiosos e terapeutas a vislumbrarem nesta forma de expressão corporal novas finalidades até então insondáveis para muitos.

No período Paleolítico, a dança teve talvez como principal finalidade a celebração de rituais sagrados. Como parte integrante destes rituais, os homens dançavam a fim de elevarem-se a um plano superior, alcançando um estado de transe. Através de giros em torno de si entram em êxtase e acreditam comunicar-se com espíritos[1].

Porém, de modo geral, a dança sempre esteve bem presente na vida dos caçadores-coletores, fazendo parte de acontecimentos tais como: nascimento, casamento, mortes, guerras, caça, iniciação da adolescência, fertilidade e acasalamento, doenças, cerimônias e colheitas[2].

Já na entrada do período Neolítico em que o homem larga a sua condição de caçador para produtor de alimentos, a dança deixa um pouco de lado a sua função mística, porém continua muito presente na vida das pessoas, sendo possível encontrar registros históricos sobre a dança referente a todas as grandes civilizações de todas as épocas, inclusive por parte dos índios brasileiros da época da colonização, que fizeram sua primeira apresentação pública em solo europeu no longínquo ano de 1550, onde 50 índios brasileiros, na companhia de mais de 200 indivíduos, todos nus e enfeitados, simularam uma luta entre os tupinambás e tabajaras[3].

Nos tempos atuais, a dança evoluiu tal como a música, adotando os mais variados estilos e ritmos, não abrindo mão de suas raízes culturais históricas como parte da identidade dos povos.

Diante de tão rica e vasta história, cabe inferir que a dança não serve apenas como forma de expressão corporal para fins religiosos, supersticiosos, culturais ou de entretenimento, mas que também é altamente benéfica na manutenção e melhora da saúde, eis que sua prática promove mudanças muito relevantes no organismo.

Em vista disso, sua prática é muito recomendada como forma de atividade física, visando combater o sedentarismo, sendo realizada em academias, escolas de dança, parques e clubes. A dança pode ser feita por pessoas de todas as idades e gêneros, mediante o respeito das limitações físicas que cada um pode apresentar.

Portanto, como atividade física, a dança promove o condicionamento físico e o fortalecimento muscular, combate a hipertensão, aumenta a sensação de prazer com a produção de endorfinas, estimula o convívio social, auxilia o controle do apetite por meio da liberação de substâncias que melhoram o funcionamento do sistema nervoso central, fortalece o sistema imunológico pela produção de aminoácidos de ação protetora, promove o funcionamento mais eficiente do pulmão e do coração, facilita o controle de diabetes, diminui a incidência de edemas, varizes e o risco de trombose nas pernas, bem como reduz o risco de osteoporose (enfraquecimento dos ossos) e fraturas na velhice[4].

Tantos são os benefícios físicos que a dança promove, além da sua vertente cultural e social, que ela começa a despertar atenção dos profissionais da saúde quanto às suas potencialidades terapêuticas como auxiliar no tratamento de doenças físicas e psíquicas.

Para citar um exemplo de como a dança pode ser útil na psicoterapia, tem-se o Centro de Formação Internacional de Dançaterapia – Dança Movimento Terapia, cujo objetivo é agrupar estudantes e facilitadores que utilizam a dança e o movimento com fins terapêuticos, a fim de integrar o trabalho físico/corporal da dança com o processo terapêutico, a partir de uma perspectiva humanista e integrativa do homem, a prezar pela totalidade do ser na qual não há a separação entre corpo, mente e emoções[5].

O CEFID-DMT elenca diversos benefícios psicológicos na prática da dançaterapia, dentre os quais, cita-se: a melhora e o aumento da autoconsciência e da autonomia pessoal; conexão com a memória pessoal; melhora dos recursos de comunicação; estímulo da criatividade e livre expressão; promove o autoconhecimento físico e emocional; melhora a autoestima e a autoconfiança; facilita a expressão de sentimento muitas vezes difíceis de serem colocados verbalmente; permite o reconhecimento das próprias limitações; promove a atenção, presença e escuta do ser; facilita e estimula a integração social; proporciona a aceitação e a valorização das diferenças; desenvolve as capacidades cognitivas, a motivação e a memória[6].

Como é possível notar, a dança é um ótimo meio de terapia holística, pois desenvolve um trabalho integrado entre corpo e mente, gerando benefícios das mais diversas naturezas com contribuições ao bem-estar e à interação social.

Porém, além de terapia holística, de caráter mais abrangente, a dança também tem sido indicada como terapia complementar para tratamentos de doenças mais específicos, assim como para promover a melhora das capacidades cognitivas do praticante.

Uma pesquisa conduzida na cidade de Bebedouro/SP, com participantes portadores de encefalopatia crônica não-progressiva com distúrbios perceptomotores frequentadores da APAE (Associação de Pais e Amigos de Excepcionais), teve por intuito demonstrar a aplicabilidade da dança terapêutica para reabilitação funcional. Foram utilizados cinco participantes no experimento para a realização de vinte sessões de dança, no período de dez semanas, concluindo-se que a dança associada a um programa de atendimento fisioterapêutico pode contribuir para um melhor prognóstico de evolução motora e na qualidade de vida de indivíduos com necessidades especiais[7].

No aspecto da dança terapêutica, não há preocupação com a técnica, cuja relevância mostra-se a partir do momento de que a sua inexecução leve a acarretar problemas lesivos ao praticante, o que não exclui a necessidade de acompanhamento da atividade por um instrutor. O importante é que as pessoas adaptem os exercícios ao seu dia-a-dia, utilizando-a como uma forma de expressão.

Outro estudo conduzido na Faculdade de Educação Física da UNICAMP procurou verificar o efeito da dança sobre a coordenação motora de crianças com Síndrome de Down. Foram elencadas 20 crianças portadoras da Síndrome, e dividida em dois grupos com 10 crianças cada, sendo que um grupo praticou a dança como forma terapêutica e o outro, não. A conclusão do estudo foi de que a dança, de fato, proporciona às crianças portadoras de Síndrome de Down índices melhores de desenvolvimento motor, desde que a prática seja condizente com as limitações que a criança possui[8].

A primeira infância, até a idade aproximada de seis anos, é a etapa mais importante a caminho da maturidade neurológica e psicológica, razão pela qual a criança deve, nesta fase, ser estimulada corretamente para o desenvolvimento de sua atividade motora. No caso específico das crianças portadoras de Síndrome de Down, o foco reside nos limites do indivíduo e não sobre o que ele é capaz de fazer, portanto a criança pode desenvolver meios de lidar com as suas restrições físicas se esta obtiver o devido suporte para tanto[9].

Com o objetivo de verificar as possibilidades terapêuticas da dança em pessoas que buscam a reabilitação psicossocial, foi elaborado um estudo com um grupo de 36 usuários do Centro de Atenção Psicossocial – CAPS II de Vitória da Conquista – BA, de idade entre 20 e 54 anos, que participaram da Oficina da Dança que aconteciam em encontros semanais. Os psicólogos responsáveis concluíram que, à medida que os participantes envolviam-se nas atividades da Oficina de Dança, houve aperfeiçoamento de interação social, reformulação da Autoestima, adesão ao tratamento psicológico e farmacológico, aumento dos vínculos de afetividade, além da reformulação de sua própria identidade e melhora da Psicomotricidade, devendo a dança ser melhor aproveitada para tratamento de pacientes com diversos tipos de transtornos mentais[10].

Historicamente, o Tantra denota um estilo particular ou gênero de ensinamentos espirituais que começou a ganhar espaço na Índia há cerca de 1500 anos atrás – ensinamentos que afirmam a continuidade entre Espírito e matéria.[11]É também conhecido como uma filosofia comportamental de características matriarcais e sensoriais. Essencialmente, onde sua prática tem por objetivo o desenvolvimento integral do ser humano nos seus aspectos físico, mental e espiritual. No Tantra encontramos o
Kirtan, que é o canto e a dança de um mantra ou canções espirituais.

O kirtan cantado com o mantra universal BABA NAM KEVALAM tem um significado muito profundo.

Baba, no idioma sânscrito quer dizer “o mais querido”.

Nam significa “nome”.

Kevalam significa “somente”.

BABA NAM KEVALAM significa, “Somente o nome do mais querido”.

A ideação deste mantra significa: Em todo lugar, em tudo que eu sinto, ouço, saboreio e cheiro percebo a Consciência Suprema (Deus). O amor está em tudo, pois tudo é expressão da Consciência Suprema, cósmica e infinita.

A prática do Kirtan fornece aos seus praticantes os seguintes benefícios: prepara a mente para a meditação, libera a mente dos pensamentos negativos, traz paz interior, esclarece as complexidades da mente intelectual e torna mais fácil encontrar soluções para os problemas.

O presente artigo teve por objetivo demonstrar um pouco das possibilidades terapêuticas da dança, tendo sido possível constatar ser a dança muito útil porque atua no lado físico, psíquico e emocional. A dança como terapia não envolve a exigência de técnica, não possuindo contraindicações, configurando-se mais como uma forma de expressão apta para que a pessoa mostre seus sentimentos, paixões e anseios, uma forma criativa de a pessoa entrar em contato com o seu interior de forma dinâmica e profunda.

A dança tem um papel ativo inestimável no processo de tratamento e cura, embora se trate de uma via complementar, tendo-lhe sido atribuído um papel de diminuta importância no Brasil como uma opção terapêutica. É preciso, portanto, despertar uma maior consciência dos profissionais da saúde sobre as possibilidades da dança, assim como das outras formas de terapias complementares para que se possa vislumbrar um tratamento à saúde integral, que envolva um estilo de vida que possa trazer às pessoas bem-estar e qualidade de vida, aumentando a felicidade.

REFERÊNCIAS

CARBONERA, Danielle e CARBONERA, Sérgio Antonio. A importância da dança no contexto escolar

DINIZ, ThaysNaig e SANTOS, Gisele Franco de Lima. História da Dança

ELLMERICH, Luiz. Hisória da Dança, 3ª Edição, São Paulo. Ricordi: 1964

FEURSTEIN, Georg. Tantra: sexualidade e espiritualidade, 2ª Edição, Rio de Janeiro. Nova Era: 2004.

GUIMARÃES, Elaine Leonezi, GUIMARÃES, Elizandra Leonezi e SANTANA, Josimari Melo de. Aplicabilidade da Dança Terapêutica para Recuperação Funcional de portadores de Distúrbios Percepto-Motores.

LIMA, Maristela Viana e Guimarães, Samuel Macedo. Possibilidades Terapêuticas do Dançar.

MAGALHÃES, Marta Claus. A dança e sua característica sagrada.

MAIA, Aline Vidal e BOFF, Sérgio Ricardo. A influência da dança no desenvolvimento da coordenação motora em crianças com Síndrome de Down.

Benefícios da atividade física – nos efeitos sobre o organismo. Artigo encontrado no sítio virtual: http://www.saudeemmovimento.com.br/conteudo.asp?notice641.

Quem somos CEFID-DMT? Artigo encontrado no sítio virtual: http://www.dancaterapia-dmt.com.br/quemsomos.htm.

Benefícios da Prática de Dançaterapia. Artigo encontrado no sítio virtual: http://www.dancaterapia-dmt.com.br/dancaterapia_beneficios.htm.

Autor: Euclides de Almeida Silva – Diretor do Instituto Namaskar – Parapsicologia Clínica Integrativa e Constelação Familiar Sistêmica.

Revisor: Euclides de Almeida Silva Filho

[1] MAGALHÃES, Marta Claus. A dança e sua característica sagrada, p. 1-2.

[2]CARBONERA, Danielle e CARBONERA, Sérgio Antonio. A importância da dança no contexto escolar, p. 18.

[3] DINIZ, ThaysNaig e SANTOS, Gisele Franco de Lima. História da Dança – Sempre apud ELLMERICH, Luiz. Hisória da Dança, 3ª Edição, São Paulo. Ricordi: 1964.

[4] Benefícios da atividade física – nos efeitos sobre o organismo. Artigo encontrado no sítio virtual: http://www.saudeemmovimento.com.br/conteudos/conteudo_frame.asp?cod_noticia=641

[5] Quem somos CEFID-DMT? Artigo encontrado no sítio virtual: http://www.dancaterapia-dmt.com.br/quemsomos.htm

[6] Benefícios da Prática de Dançaterapia. Artigo encontrado no sítio virtual: http://www.dancaterapia-dmt.com.br/dancaterapia_beneficios.htm

[7] GUIMARÃES, Elaine Leonezi, GUIMARÃES, Elizandra Leonezi e SANTANA, Josimari Melo de. Aplicabilidade da Dança Terapêutica para Recuperação Funcional de portadores de Distúrbios Percepto-Motores.

[8] MAIA, Aline Vidal e BOFF, Sérgio Ricardo. A influência da dança no desenvolvimento da coordenação motora em crianças com Síndrome de Down.

[9]MAIA, Aline Vidal e BOFF, Sérgio Ricardo. A influência da dança no desenvolvimento da coordenação motora em crianças com Síndrome de Down, p. 2.

[10]LIMA, Maristela Viana e Guimarães, Samuel Macedo. Possibilidades Terapêuticas do Dançar.

[11] FEURSTEIN, Georg. Tantra: sexualidade e espiritualidade, p. 18, 2ª Edição, Rio de Janeiro. Nova Era: 2004

Autor: namaskar

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