Ansiedade

A ansiedade tem se apresentado cada vez mais frequente entre pessoas de todas as faixas etárias, nas suas mais diversas gradações, que vão desde uma leve inquietação da mente na forma de preocupações do dia-a-dia até a existência de transtornos mentais de ansiedade, devidamente catalogados pelo CID-10.

O ritmo frenético e muitas vezes desprovido de valores e referências da sociedade contemporânea é certamente o maior responsável pelo crescente aumento nos casos de ansiedade. A falta de tempo, o estresse da rotina, a ausência de foco e o consumismo têm levado a seríssimos problemas para a saúde emocional das pessoas, levando àquilo definido por Augusto Cury como Síndrome de Pensamento Acelerado, afetando o ritmo de construção do pensamento, comprometendo o desempenho global do intelecto, gerando angústia, problemas de memória, concentração e outras perturbações[1].

A Síndrome de Pensamento Acelerado não pode ser considerada a rigor um transtorno de ansiedade, antes um processo de anormalidade do pensamento, mas que pode conduzir a problemas psiquiátricos porque te deixam em descompasso com o seu verdadeiro eu, ficando a mercê dos mais diversos agentes estressores que levam ao decréscimo do bem-estar e da qualidade das conexões emocionais. O mais grave de tudo é que hojea maioria das pessoas estão afetadas por esse mal, especialmente os mais jovens.

O vício em pensar, caracterizado pelo excesso de informação, de trabalho intelectual, de atividades, de preocupação, de uso de celular e outros meios digitais, atua como uma bomba contra a saúde psíquica, o prazer de viver e a criatividade. Essa falta de equilíbrio leva a pessoa a ser vítima de si mesma, sem capacidade para gerir os seus próprios pensamentos e emoções. Os efeitos deletérios deste fenômeno têm permanecido ocultos, sendo, no mais das vezes, estimulados pela falta de entendimento sobre o papel que representa a constituição dos processos mentais em uma pessoa[2].

A ansiedade deriva do instinto do medo, também chamado de “luta ou fuga”, onde a pessoa é envolvida por sensações de sudorese, taquicardia, aceleração da respiração, tremores, boca seca, formigamento, calafrios etc. Contudo, na reação do medo, a pessoa sabe exatamente por que está se sentindo daquela forma, enquanto que nos transtornos de ansiedade não é tão claro identificar um fator desencadeante ou um estímulo óbvio para causar sentimentos tão fortes[3].

Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, os transtornos de ansiedade são vários, e a principal característica deles, além da presença de ansiedade, é o comportamento de esquiva, ou seja, a pessoa tende a evitar determinadas situações nas quais a ansiedade exacerbada pode deflagrar. Dentro desse leque, o medo patológico pode se manifestar de diversas formas e em graus de intensidade diferentes[4].

Os transtornos de ansiedade mais comuns são: Transtorno de pânico, Transtorno de Ansiedade Social (TAS) ou timidez patológica, Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), Fobias Específicas, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Cada um desses transtornos será analisado mais detalhadamente a seguir.

Transtorno de Pânico. Um ataque de pânico é um período inconfundível de imenso medo ou temor no qual qual quatro ou mais dos sintomas a seguir listados se desenvolvem de forma abrupta. O ataque atinge o ápice em 10 minutos e costuma se estender por aproximadamente 40 minutos. Os sintomas do pânico são: palpitações ou taquicardia; sudorese intensa;tremores ou abalos musculares; sensação de falta de ar ou sufocamento; sensação de asfixia ou “nó” na garganta; dor ou desconforto no peito; náuseas ou desconforto abdominal; sensação de tontura, vertigem ou desmaio; sensação de irrealidade ou de despersonalização; medo de perder o controle de seus atos ou de enlouquecer; medo de morrer; sensação de anestesia ou de formigamento; calafrios ou ondas de calor[5].

Transtorno de Ansiedade Social (TAS) ou timidez patológica. A timidez caracteriza-se como uma inibição do comportamento de uma pessoa quando na presença de outras pessoas. As manifestações mais comuns e perceptíveis são: o silêncio, o retraimento físico, o rubor na face (vermelhidão no rosto), a gagueira na fala e a sensação de ansiedade[6].

Trata-se de uma manifestação de ansiedade normal, mas que pode converter-se em um transtorno quando: há uma necessidade extrema de aprovação dos outros; cria-se uma expectativa constante de avaliação negativa pelos outros; a desaprovação é sempre vista como uma grande tragédia; as gafes sociais são remoídas na forma de pensamentos obsessivos, acompanhadas de tristeza e autorrecriminação; reações duvidosas dos outros são sempre interpretadas de forma negativa[7].

Fobias Específicas. O medo de forma equilibrada é uma condição natural e necessária para todos nós, porém, para os portadores de uma fobia específica, ele é absurdo, desproporcional, inadequado e incompreensível. O fóbico, diante de uma situação temida, apresenta sintomas físicos de extremo desconforto (transpiração excessiva, tremores, falta de ar, taquicardia, mãos frias, entre outros)[8].

Uma característica essencial desse transtorno é que o medo ou ansiedade está circunscrito à presença de um objeto ou situação particular, que pode ser denominado de estímulo fóbico. O medo ou ansiedade deve ser intenso ou grave, devendo ser evocado quase todas as vezes em que o indivíduo entra em contato com o estímulo fóbico[9].

As fobias específicas assumem alguns subtipos: de animais, de ambientes naturais, de sangue-injeção-ferimento, de determinadas situações (túneis, pontes, aviões, lugares fechados), de diversos fatos (doenças, engasgamento, vômito, asfixia)[10].

Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Ao longo da vida, todos nós vivenciamos, de uma forma ou de outra, experiências difíceis ou traumáticas. Já aqueles com TEPT são capazes não somente de recordar as imagens do ocorrido, como também de reviver e remoer, de forma intensa, persistente e sofrível, toda a dor que os abateu. São pessoas que passaram por eventos de natureza excepcionalmente ameaçadora ou catastrófica; testemunharam a morte de perto; correram risco de vida; vivenciaram momentos de violência ou fatos violentos como assaltos, sequestros, acidentes de carro, corroborados por sentimentos de impotência, medo ou horror[11].

Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). Esse transtorno se caracteriza por um estado permanente de ansiedade, sem nenhuma associação com situações ou objetos. A pessoa com TAG sofre diversos incômodos subjetivos ou físicos a cada instante de sua existência, por motivos injustificáveis ou desproporcionais. Trata-se de uma percepção errônea ou exagerada de um perigo que, de forma imaginária, está sempre ali, perseguindo, rodeando, invadindo[12].

A ansiedade e a preocupação são acompanhadas por pelo menos três dos sintomas adicionais: inquietação ou sensação de estar com os nervos à flor da pele, fatigabilidade, dificuldade em concentrar-se ou sensações de “branco” na mente, irritabilidade, tensão muscular, perturbação do sono, embora apenas um sintoma adicional seja exigido para crianças[13].

Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). O TOC é caracterizado pela presença de obsessões e compulsões. Obsessões são pensamentos repetitivos, negativos, estressantes, de natureza sempre ruim ou desagradável, que surgem de forma insistente ou intrusiva. Mesmo que seja improvável que esses pensamentos se realizem, os portadores supervalorizam a possibilidade de eles acontecerem e, por isso, desenvolvem comportamentos repetitivos (compulsões), na tentativa de evitar que eles ocorram. Assim, as compulsões, conhecidas como manias, são comportamentos repetitivos que a pessoa se obriga a ter para “anular” as consequências de seus pensamentos obsessivos, que ela teme que se realizem[14].

Os sintomas do TOC envolvem as seguintes alterações: do comportamento – rituais, compulsões, repetições, evitações; dos pensamentos – preocupações excessivas, dúvidas, pensamentos de conteúdo inapropriado, obsessões; das emoções – medo, desconforto, aflição, culpa. As compulsões mais frequentes são: mania de limpeza e lavagem, mania de ordenação ou simetria, mania de verificação ou checagem, mania de contagem, mania de colecionamento, mania de repetição, mania mental, e outras manias diversas[15].

Inúmeras pesquisas têm sugerido que uma dieta equilibrada e bem selecionada pode ser útil na redução dos sintomas de ansiedade, pânico e estresse excessivo. Assim, é bom evitar ou moderar no consumo da cafeína, açúcar, álcool, suplementos alimentares, latícinios e carnes vermelhas. Em compensação, é altamente recomendado o consumo de verduras, frutas, féculas, cereais integrais, quinoa, amaranto, milho, arroz, nozes, óleos, peixes, aves e carnes[16].

Dentre as opções de tratamento para o alívio da ansiedade, não se pode deixar de destacar os tratamentos por terapias complementares e integrativas ante o seu caráter integral, ou seja, que foca no bem-estar físico e mental da pessoa, e pelo seu caráter preventivo, por evitar o surgimento do estresse e da ansiedade, colocando a pessoa em uma condição de dispor de maior serenidade e reflexão para encarar os desafios do cotidiano.

As técnicas de relaxamento são muito úteis para atingir a paz física e mental, porque faz com que a pessoa detenha o constante fluxo de pensamentos improdutivos (síndrome do pensamento acelerado) e aquiete a mente. A prática de exercícios físicos propicia a descarga de tensão física e emocional, reduzindo direta e imediatamente a ansiedade e o estresse. Também vale ressaltar a meditação, a ioga, a acunpuntura, o shiatsu, a fitoterapia, os florais ou qualquer outro tratamento que se possa apresentar útil neste contexto.

Já em relação aos tratamentos propostos pela medicina tradicional para os transtornos de ansiedade, há os medicamentosos, a terapia psicológica e a terapia cognitivo-comportamental. O tratamento medicamentoso sempre deve ser conduzido com muito cuidado e pela prescrição de um médico de confiança, mas pode ser de fundamental importância em alguns casos de ansiedade patológica. A terapia cognitiva-comportamental provou ser capaz de alterar os esquemas de pensamento que aprisionam as pessoas aos seus medos, além de alterar o comportamento diante dos fatores de ansiedade que o desencadeiam[17].

Por fim, percebe-se que a ansiedade vem ocupando um espaço extremamente nocivo na sociedade atual, nas suas mais diversas formas e gradações, relacionando-se de forma direta com as mais diversas patologias, da depressão ao estresse crônico que gera problemas cardíacos. A Síndrome do Pensamento Acelerado tem afetado de forma cruel inúmeros jovens, que se tornaram reféns de esquemas de pensamento que nada agregam a uma sadia qualidade de vida. Os transtornos de ansiedade registraram um súbito aumento de casos, de forma a preocupar os agentes de saúde.

A utilização de ansiolíticos sem prescrição médica disparou, conforme atestam estudos feitos em diversas capitais no país, gerando uma situação de extrema preocupação quanto aos possíveis efeitos colaterais desses medicamentos, uma vez que eles supostamente são apenas capazes de combater os efeitos da ansiedade, mas não as devidas causas, que continuam a martelar a mente do ansioso. Sem contar que, com o uso constante, a pessoa se torna resistente a esses ansiolíticos, o que demanda sua utilização em maior quantidade, acarretando um círculo vicioso que invariavelmente não acaba bem.

Para quebrar esse estado de coisas nefasto, é preciso um esforço comum de reavaliação de muitos dos valores em voga na sociedade, bem como das políticas públicas de educação e de saúde, com o fim de criar um movimento que vise ao bem-estar e à plena saúde mental das pessoas para que elas possam desenvolver as suas potencialidades.

REFERÊNCIAS

Associação Americana de Psiquiatria. Manual Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais (DSM-V).

Cury, Augusto. Ansiedade – Como enfrentar o mal do século

Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas.

Autor: Euclides de Almeida Silva – Diretor do Instituto Namaskar – Parapsicologia Clínica Integrativa e Constelação Familiar Sistêmica.

Revisor: Euclides de Almeida Silva Filho.

[1] Cury, Augusto. Ansiedade – Como enfrentar o mal do século, p.12.

[2] Cury, Augusto. Ansiedade – Como enfrentar o mal do século, p. 09.

[3] Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas, p. 25.

[4]Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas, p. 33.

[5]Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas, p. 36.

[6]Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas, p. 72.

[7]Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas, p. 72.

[8] Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas, p. 90.

[9]Associação Americana de Psiquiatria. Manual Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais (DSM-V), p. 198.

[10] Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas, p. 92.

[11]Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas, p. 112.

[12]Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas, p. 129.

[13]Associação Americana de Psiquiatria. Manual Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais (DSM-V), p. 223.

[14]Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas, p. 142.

[15]Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas, p. 148.

[16]Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas, p. 161.

[17]Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Ansiosas, p. 31.

Autor: namaskar

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