Estresse

O estresse é um mal que ainda especialmente em voga no mundo pós-moderno, servindo como porta de entrada para todos os tipos de transtornos mentais e doenças crônicas, afetando a qualidade de vida e a felicidade da população em geral.

A palavra estresse deriva do inglês medieval (distress), empregada em física como sinônimo de “tensão mecânica” com significado de estiramento para um lado e outro. Em situações críticas, ou sempre que ocorre o enfrentamento ou fuga, a química do organismo se altera, desde sempre. O estresse funciona em seu papel fundamental e positivo de colocar o homem em alerta para enfrentar os perigos da vida sem comprometer a sua integridade física. São os mecanismos de luta ou fuga[1].

A complexidade crescente das relações sociais, interpessoais, tecnológicas e pessoais tem favorecido a manutenção de um estado crônico de estresse e tensão. A evolução espiritual e a capacidade de recuperar e manter um equilíbrio saudável simplesmente não progrediram na mesma proporção que os elementos causadores de tensão[2].

Quando a vida era mais calma, podíamos experimentar momentos de estresse agudo, mas em seguida voltávamos à tranquilidade e nos recuperávamos. Agora, estamos muito mais expostos ao estresse constante ou crônico que não dá a nossos corpos tempo suficiente para reverter os nocivos efeitos fisiológicos. Consequentemente, abundamo-nos de hormônios de estresse nocivos à saúde física e mental[3].

O estresse resulta de nossa reação psicológica e física às mudanças potenciais com que convivemos atualmente. A mente reage com preocupação, ansiedade ou medo. O corpo reage secretando substâncias químicas e hormônios[4].

O circuito fisiológico do estresse funciona da seguinte forma: quando um perigo é percebido, a região do hipotálamo do nosso cérebro responde liberando CRH (hormônio liberador da corticotropina) que ativa a glândula pituitária que, por sua vez, secreta ACTH (hormônio adrenocorticotrófico), que faz as glândulas adrenais liberarem três outros hormônios: epinefrina (adrenalina), norepinefrina (noradrenalina) e cortisol (glicocorticoide). A epinefrina e a norepinefrina aumentam a pressão arterial e a freqüência cardíaca, desviam o sangue do sistema gastrointestinal para os músculos e aceleram o tempo de reação. O cortisol libera glicose (açúcar) da reserva fisiológica, a fim de prover combustível imediato para o corpo. O cortisol também age para prevenir inflamação no local de lesões ou ferimentos em potencial. O circuito completo de secreção de substâncias químicas e hormônios é conhecido como eixo HPA – hipotalâmico-pituitário-adrenal[5].

Uma ameaça real ou imaginária ativa o eixo HPA. Estaremos prontos para lutar ou fugir, dependendo da natureza do perigo. A respiração acelera, o coração dispara e a mente se torna ao mesmo tempo ativa e concentrada. Os músculos ficam prontos para a ação imediata. A força física e a agilidade melhoram[6].

O estresse, em geral, pode ser definido como qualquer ativação do eixo HPA, o que significa quase todo estímulo, como medo ou dor, que perturba ou interfere com o equilíbrio fisiológico normal do indivíduo. Quando os estressores, ou seja, as causas desencadeantes da excitação do organismo, são em menor número e duração limitada, eles podem ser vistos como fatos positivos, porque nossos corpos e mentes se tornam mais alertas, concentrados, energéticos e envolvidos. Nesse caso, os efeitos são benéficos. Mas se o estresse é grave ou persistepor um longo período, esses benefícios não ocorrem[7].

Os fatores estressores podem ser classificados em externos e internos. Os primeiros dizem respeito às condições externas que afetam o organismo e são representadas por situações vividas, como: pressões no trabalho, medo do desemprego, responsabilidade fora de controle, situação econômica, separação, doenças, mortes, problemas afetivos etc. Os estressores internos são aqueles que fazem parte do mundo interior da pessoa, como: cognições, sentimentos, forma de perceber o mundo, nível de assertividade, crenças, valores, padrões de comportamento etc[8].

Realmente, não existe uma determinante específica para os sintomas do estresse e sua ocorrência, dependendo da forma de interpretar e reagir da pessoa, que pode envolver componentes comportamentais, afetivos, cognitivos e fisiológicos e da capacidade de seu organismo em atender às exigências do momento[9].

Hans Selye relata três fases do estresse em seu trabalho, que tem sido utilizado como referência na maioria das pesquisas sobre o assunto. O modelo trifásico compreende as fases de alerta, resistência e exaustão[10].

Na fase de alerta, que envolve uma reação principalmente biológica, o organismo é mobilizado para situações de emergência numa reação de luta ou fuga representado pelo efeito imediato e inicial do agente nocivo. É a reação natural de defesa e preservação da vida. As reações da fase de alerta podem ser diversas, tais como a redução da temperatura do corpo e aumento da frequência cardíaca e respiratória, provocando por sintomas a taquicardia, tensão, suor nas mãos, nos pés, palidez, insônia esgotamento, irritação, mudança de humor[11].

Na segunda fase, de defesa ou resistência, surgem reações de natureza psicossocial, representando os esforços defensivos do sistema fisiológico, a refletir na elevação das secreções adrenocorticais, produzindo aumento da pressão sanguínea e da temperatura do organismo, com manifestações de alergia, cansaço, queda na produtividade, hipertensão, agressividade, depressão, distúrbios gastrointestinais e problemas de memória. Nesse estágio, o organismo procura se restabelecer em busca de adaptação, mas a persistência do estresse, superior à capacidade defensiva do sujeito, leva à fase da exaustão[12].

Na exaustão, ocorre o adoecimento do órgão mobilizado na fase da resistência, onde os efeitos do estresse causam prejuízos concretos à saúde da pessoa, pela sua intensidade e pelo período prolongado. A depender do caso, pode ocorrer até mesmo a morte súbita[13].

O estresse também pode manifestar-se em tipos variados, tais quais o físico, psicológico, psico-fisiológico e o da temporalidade.

O estresse físico surge a partir de estímulos internos (alegria, tristeza, angústia ou medo) ou externos (frio, calor, trabalho, ambiente social), desencadeando diversas reações no organismo por meio do sistema nervoso, endócrino, imunológico, estimulação do hipotálamo e sistema límbico. Essas são as manifestações físicas do estresse e são percebidas como dores de barriga, taquicardia, tremores, problemas intestinais, crises de hipertensão, choro, boca seca e dificuldade de respirar. Os sintomas do estresse físico podem evoluir para doenças como infarto do miocárdio, arteriosclerose, gastrites, úlceras e problemas de pele[14].

As manifestações psicológicas do estresse apresentam sintomas como preocupação, solidão, cansaço, apatia, ansiedade, indiferença emocional, falta de concentração, falta de controle, perda de autoestima, sentimento de impotência diante de situações, incompreensão, isolamento, podendo levar à depressão ou a doenças psíquicas mais graves[15].

Tensão, perda de interesse, pessimismo, insônia ou sono excessivo, pensamento abstrato prejudicado, agitação, perda de memória, cansaço e falta de energia são algumas das manifestações psico-fisiológicas do estresse. Este tipo de estresse caracteriza-se por um desgaste psíquico que, não encontrando uma solução mental adequada, desencadeia desordens endócrino-metabólicas no organismo, que são o princípio de uma doença somática[16].

O estresse da temporalidade se manifesta por esquecimentos em geral, dificuldades para se organizar ou planejar seu tempo, inquietude, preocupação em demasia com o futuro, entre outros[17].

Há inúmeras fontes de estresse originadas de acontecimentos que não podemos controlar. Contudo, se não podemos evitar certos acontecimentos estressantes, podemos controlar nossa forma de reagir a eles. Infelizmente, passamos mais tempo nos preocupando com o que acontece do que tomando consciência da atitude que podemos assumir para nos defender[18].

Temos muitas preocupações. O dinheiro muitas vezes assume um papel de centralidade na vida das pessoas, quando deveria ser encarado como um instrumento, uma ferramenta que pode levá-lo a atingir determinados bens materiais. O que realmente queremos é segurança, felicidade e amor, e isso o dinheiro não pode dar. O mesmo nível de preocupação é motivado pelo sucesso e o fracasso. Aqui, as definições de sucesso e fracasso são distorcidas pela nossa cultura, eis que uma pessoa pode ser pobre e feliz em seus relacionamentos, enquanto outra pode ser rica e muito infeliz. Preocupamo-nos excessivamente com que os outros pensam a nosso respeito – suas opiniões, julgamentos e críticas –, sendo que suas opiniões normalmente baseiam-se nos mesmos valores culturais que medem o dinheiro e definem o sucesso. Temos que saber o que nós somos e o que nós desejamos. Isso é o essencial[19].

A preocupação não produz mudanças positivas ou crescimento. Não altera o futuro. É útil planejar o futuro, mas não se preocupar. Se pensarmos bem, constataremos que esse tipo de estresse é uma ilusão. Não é real. No momento em que tiver que enfrentar algum problema, apele para a força que existe em ti[20].

Dentre as estratégias para enfrentamento do estresse, destacam-se como positivas o controle, a física, a psicológica e o apoio social.

A estratégia de controle tem por objetivo a regularização das atividades mentais, comportamentais e de reações emocionais. O indivíduo tenta dominar a situação, seja evitando decisões precipitadas, sem refletir (regulação das atividades), seja planejando (controle cognitivo), disfarçando as suas emoções ou controlando o pânico e o medo (controle emocional)[21].

A estratégia física tem o objetivo de levar o corpo a alcançar um profundo estado de relaxamento muscular. As técnicas de relaxamento podem ser realizadas na vida diária e usadas conscientemente em épocas de estresse, quebrando o ciclo de tensão muscular e de sintomas físicos[22].

No enfrentamento psicológico, busca-se conscientemente libertar-se do estresse. Foca-se na mudança de atitudes, perspectivas e percepções, mediante a convicção de que é possível controlar as situações que levam ao estresse. Quando temos condições de escolher o que é melhor para nós, podemos alterar o nosso estado mental e nossos condicionamentos. Podemos transformar o estresse em uma lição de vida positiva[23].

O apoio social também é uma importante estratégia de enfrentamento do estresse, pois associa aspectos cognitivos do apoio social, como a cooperação, a ajuda à informação e o apoio afetivo. Caracteriza-se pela demanda, pela solicitação e pela procura de ajuda. Essa ajuda pode se dar por meio de conselhos, informações ou de consolo, de diálogos e de escutas de outras pessoas. Esse campo inclui igualmente a participação. A pessoa coopera em atividades coletivas, buscando uma inter-relação com os outros[24].

Como fora exposto, o estresse pode adquirir contornos crônicos se não controlado adequadamente e pode-se considerar como a porta de entrada para todos os demais males crônicos e psicológicos. É preciso que se adquira consciência sobre o que realmente importa para uma sadia qualidade de vida.

REFERÊNCIAS

Pereira, José. Estresse, Estratégias de Enfrentamento e Qualidade de Vida no Ambiente de Trabalho: Um Estudo em um Instituto de Pesquisas.

Valle, Luiza. Estresse e Distúrbios do Sono no Desempenho dos Professores: Saúde Mental no Trabalho.

Weiss, Brian. Eliminando o estresse.

Autor: Euclides de Almeida Silva – Diretor do Instituto de Parapsicologia Clínica Integrativa e Constelação Familiar Sistêmica.

Revisor: Euclides de Almeida Silva Filho.

[1]Valle, Luiza. Estresse e Distúrbios do Sono no Desempenho dos Professores: Saúde Mental no Trabalho, p. 44.

[2] Weiss, Brian. Eliminando o estresse, p. 5.

[3]Weiss, Brian. Eliminando o estresse, p. 5.

[4]Weiss, Brian. Eliminando o estresse, p. 6.

[5]Weiss, Brian. Eliminando o estresse, p. 6.

[6]Weiss, Brian. Eliminando o estresse, p. 6.

[7]Weiss, Brian. Eliminando o estresse, p. 8.

[8]Valle, Luiza. Estresse e Distúrbios do Sono no Desempenho dos Professores: Saúde Mental no Trabalho, p. 49.

[9]Valle, Luiza. Estresse e Distúrbios do Sono no Desempenho dos Professores: Saúde Mental no Trabalho, p. 50.

[10]Valle, Luiza. Estresse e Distúrbios do Sono no Desempenho dos Professores: Saúde Mental no Trabalho, p. 54.

[11]Valle, Luiza. Estresse e Distúrbios do Sono no Desempenho dos Professores: Saúde Mental no Trabalho, p. 54.

[12]Valle, Luiza. Estresse e Distúrbios do Sono no Desempenho dos Professores: Saúde Mental no Trabalho, p. 55.

[13]Valle, Luiza. Estresse e Distúrbios do Sono no Desempenho dos Professores: Saúde Mental no Trabalho, p. 55.

[14]Pereira, José. Estresse, Estratégias de Enfrentamento e Qualidade de Vida no Ambiente de Trabalho: Um Estudo em um Instituto de Pesquisas, p. 118.

[15]Pereira, José. Estresse, Estratégias de Enfrentamento e Qualidade de Vida no Ambiente de Trabalho: Um Estudo em um Instituto de Pesquisas, p. 120.

[16]Pereira, José. Estresse, Estratégias de Enfrentamento e Qualidade de Vida no Ambiente de Trabalho: Um Estudo em um Instituto de Pesquisas, p. 121.

[17]Pereira, José. Estresse, Estratégias de Enfrentamento e Qualidade de Vida no Ambiente de Trabalho: Um Estudo em um Instituto de Pesquisas, p. 122.

[18]Weiss, Brian. Eliminando o estresse, p. 24.

[19]Weiss, Brian. Eliminando o estresse, p. 24.

[20]Weiss, Brian. Eliminando o estresse, p. 25.

[21]Pereira, José. Estresse, Estratégias de Enfrentamento e Qualidade de Vida no Ambiente de Trabalho: Um Estudo em um Instituto de Pesquisas, p. 126.

[22]Weiss, Brian. Eliminando o estresse, p. 29.

[23]Weiss, Brian. Eliminando o estresse, p. 31.

[24]Pereira, José. Estresse, Estratégias de Enfrentamento e Qualidade de Vida no Ambiente de Trabalho: Um Estudo em um Instituto de Pesquisas, p. 127.

Autor: namaskar

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