Transtorno Obsessivo – Compulsivo – TOC

O Transtorno Obsessivo-Compulsivo, conhecido popularmente como TOC, foi alçado pelo DSM-5 a uma categoria própria de transtornos mentais (300.3 F42 – Transtornos Obsessivos-Compulsivos e transtornos relacionados), deixando, portanto, de fazer parte da categoria dos transtornos de ansiedade.

Este transtorno vem ganhando um destaque cada vez maior em virtude do seu aumento de incidência, tendo a OMS declarado ser o TOC uma das dez maiores causas de incapacitação das pessoas e a quinta entre mulheres de 15 a 45 anos em países de desenvolvimento e desenvolvidos[1].

Além do mais, cerca de 4% da população em geral sofre de TOC, sendo que 10% dos casos são graves o suficiente para incapacitar a pessoa para o trabalho e acarretar limitações significativas à convivência com terceiros. Sabe-se que, diante de algum caso de TOC na família, a chance de existir outro aumenta em 4 a 5 vezes[2].

Segundo o DSM-5, o Transtorno Obsessivo-Compulsivo caracteriza-se pela presença de obsessões e/ou compulsões. Associa-se a uma qualidade de vida reduzida, assim como a altos níveis de prejuízo social e profissional. O prejuízo ocorre em muitos domínios diferentes da vida e relaciona-se com a gravidade do sintoma[3].

OBSESSÕES E COMPULSÕES

Obsessões são pensamentos ou impulsos que invadem a mente de forma repetitiva e persistente. Podem ainda ser imagens, palavras, frases, números, músicas, etc. Sentidas como estranhas e impróprias, as obsessões geralmente são acompanhadas de medo, angústia, culpa ou desprazer. O indivíduo, mesmo desejando ou se esforçando, não consegue afastá-las ou suprimi-las da sua mente[4].

As obsessões conduzem ao surgimento das chamadas crenças disfuncionais, que, por fim, retroalimenta as obsessões, em um círculo vicioso. As crenças disfuncionais podem incluir senso aumentado de responsabilidade e tendência a superestimar a ameaça, perfeccionismo, intolerância à incerteza e importância excessiva dos pensamentos (acreditar que ter um pensamento proibido é tão importante quanto executá-lo) e necessidade de controlá-los[5].

Compulsões, por sua vez, podem ser definidas como: comportamentos repetitivos (lavar as mãos, organizar, verificar) ou atos mentais (orar, contar ou repetir palavras em silêncio) que o indivíduo se sente compelido a executar em resposta a uma obsessão ou de acordo com regras que devem ser rigidamente aplicadas; também como os comportamentos ou atos mentais que visam prevenir ou reduzir a ansiedade ou sofrimento ou evitar algum evento ou situação temida, entretanto esses comportamentos ou atos mentais não têm uma conexão realista com o que visam neutralizar ou evitar ou apresentam-se claramente excessivos[6].

Atualmente se acredita que as compulsões existam em razão das obsessões: são realizadas com a finalidade de aliviar ou neutralizar a aflição, o desconforto e o medo.

Vale ressaltar que a presença de obsessões e compulsões nem sempre significa que o indivíduo seja portador de TOC. Normalmente as pessoas apresentam obsessões e executam rituais de forma passageira, referente a situações episódicas, sem acarretar maiores alterações quanto ao seu modo de viver[7].

CARACTERÍSTICAS DO TOC

Para que possa ser considerada TOC, as obsessões ou compulsões devem tomar tempo (ex. mais de uma hora por dia) ou causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes na vida do indivíduo. Os sintomas obsessivos-compulsivos não deverão decorrer dos efeitos fisiológicos de uma substância ou a outra condição médica. A perturbação não será mais bem explicada pelos sintomas de outro transtorno mental[8].

As compulsões ou manias mais frequentes são: mania de limpeza e lavagem, mania de ordenação e simetria, mania de verificação e checagem, mania de contagem, mania de colecionamento, mania de repetição, mania mental, além de outras[9].

Os indivíduos com TOC variam no grau de insight que têm quanto à veracidade das crenças subjacentes aos seus sintomas obsessivos-compulsivos. Muitos têm insight bom ou razoável, que é quando o indivíduo reconhece que as crenças do transtorno obsessivo-compulsivo são definitiva ou provavelmente não verdadeiras ou que não podem ser verdadeiras. Alguns têm insight pobre, ou seja, acreditam que as crenças do transtorno são provavelmente verdadeiras. Poucos, menos de 4% dos pacientes, têm insight ausente/crenças delirantes, onde o indivíduo está completamente convencido que as crenças do transtorno são verdadeiras[10].

TOC COMO DOENÇA NEUROBIOLÓGICA

Muitos estudos encontraram uma série de evidências que levam a concluir que o TOC é uma doença de base neurobiológica, contrariamente ao senso estabelecido de que apenas fatores psicológicos desencadeiam o transtorno.

A eficácia de medicamentos na redução dos sintomas, a hiperatividade nas regiões cerebrais do córtex frontais e dos gânglios basais, a presença de sintomas obsessivos-compulsivos em outras doenças neurológicas, a neurocirurgia como apta a reduzir os sintomas do TOC e a genética permitem inferir que o Transtorno Obsessivo-Compulsivo traz em si uma complexidade que demanda uma análise multifatorial para o seu tratamento[11].

CAUSAS DO TOC

Assim, podem ser citadas como prováveis causas para o TOC a predisposição genética, situações de estresse, fatores neurobioquímicos, infecção por vírus estreptococos beta-hemolíticos do grupo A, alterações hormonais durante a evolução da gravidez e após o parto, fatores psicológicos, entre outros[12].

A interação desses diversos fatores tem fundamental importância na formação e no funcionamento das estruturas, dos circuitos e das conexões interneuronais. É esse quebra-cabeça sofisticado tão variáveis e individuais que determina o modo como cada cérebro vai funcionar. Uma pequena mas significativa alteração em um ou vários desses fatores pode fazer com que o cérebro aprisione a pessoa num padrão de pensamentos e comportamentos repetitivos, sem sentido, desagradáveis e difíceis de serem controlados[13].

TRATAMENTOS PARA O TOC

Os tratamentos atuais para o TOC são de dois tipos: medicamentos do grupo dos antidepressivos, conhecidos como inibidores da ação da serotonina, e a terapia comportamental de exposição e prevenção de rituais (EPR), associada ou não a técnicas cognitivas – conjunto esse habitualmente chamado de terapias cognitivas-comportamentais (TCC)[14].

Os medicamentos que comprovadamente são eficazes no tratamento dos sintomas obsessivos-compulsivos são: clomipramina, fluoxetina, sertralina, citalopram e fluvoxamina. Em geral, as doses ministradas no tratamento de TOC são mais elevadas que as utilizadas na depressão. Os efeitos podem levar até três meses para se manifestar. O desaparecimento dos sintomas é gradual, progredindo ao longo do tempo. Embora muitos pacientes obtenham redução significativa, dificilmente os sintomas desaparecem por completo[15].

A terapia comportamental é um método de tratamento que tem por objetivo a modificação de comportamentos considerados inadequados ou patológicos. Os dois recursos essenciais para vencer o TOC são a exposição e a prevenção de rituais. A exposição consiste no contato direto ou imaginários com objetos, lugares ou situações que não são perigosos, mas dos quais a pessoa tem medo ou os quais evita porque geram desconforto. A prevenção de rituais é a abstenção de executar um ritual, uma compulsão mental ou qualquer manobra destinada a reduzir ou neutralizar a ansiedade, o desconforto ou o medo que acompanham as obsessões[16].

A terapia cognitiva refere-se a certas técnicas que nos auxiliam na correção de pensamentos e crenças distorcidos ou errados, comuns em portadores de TOC. Complementam a terapia comportamental de EPR e vêm sendo consideradas de grande utilidade pelos pacientes em geral, especialmente por aqueles que apresentam boa capacidade de introspecção, pois permitem melhor compreensão dos sintomas e dos motivos pelos quais são obrigados a realizar os rituais, reduzindo o grau de aflição associado e favorecendo a adesão às atividades práticas[17].

SINTOMAS

Os sintomas do TOC envolvem as seguintes alterações: do comportamento – rituais, compulsões, repetições, evitações; dos pensamentos – preocupações excessivas, dúvidas, pensamentos de conteúdo inapropriado, obsessões; das emoções – medo, desconforto, aflição, culpa[18].

TRANSTORNOS RELACIONADOS AO TOC

Por fim, vale a pena citar os outros transtornos mentais que fazem parte do espectro dos transtornos obsessivos-compulsivos, mas não se confundem com o TOC. Segundo o DSM-5, são transtornos obsessivos-compulsivos a tricotilomania (transtorno de arrancar o cabelo), o transtorno de escoriação (skin-picking), transtorno dismórfico corporal (preocupação excessiva com falhas na aparência física), transtorno de acumulação (dificuldade persistente de descartar ou se desfazer de pertences), transtorno relacionado induzido por substância/medicamento, transtorno relacionado induzido por outra condição médica[19].

REFERÊNCIAS

Associação Psiquiátrica Americana. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mental – DSM-5.

Cordioli, Aristides. Manual de terapia cognitivo-comportamental para o transtorno obsessivo-compulsivo.

Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes e manias.

Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes ansiosas.

Autor: Euclides de Almeida Silva – Diretor do Instituto Namaskar – Parapsicologia Clínica Integrativa e Constelação Familiar Sistêmica.

Revisor: Euclides de Almeida Silva Filho.

[1]Cordioli, Aristides. Manual de terapia cognitivo-comportamental para o transtorno obsessivo-compulsivo, p. 09.

[2] Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes e manias, p. 29.

[3] Associação Psiquiátrica Americana. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mental – DSM-5, p. 240.

[4]Cordioli, Aristides. Manual de terapia cognitivo-comportamental para o transtorno obsessivo-compulsivo, p. 15.

[5]Associação Psiquiátrica Americana. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mental – DSM-5, p. 238.

[6] Associação Psiquiátrica Americana. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mental – DSM-5, p. 237.

[7]Cordioli, Aristides. Manual de terapia cognitivo-comportamental para o transtorno obsessivo-compulsivo, p. 24.

[8] Associação Psiquiátrica Americana. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mental – DSM-5, p. 237.

[9]Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes e manias, p. 104.

[10] Associação Psiquiátrica Americana. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mental – DSM-5, p. 237.

[11]Cordioli, Aristides. Manual de terapia cognitivo-comportamental para o transtorno obsessivo-compulsivo, p. 36.

[12] Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes ansiosas, p. 37.

[13]Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes ansiosas, p. 37.

[14]Cordioli, Aristides. Manual de terapia cognitivo-comportamental para o transtorno obsessivo-compulsivo

[15]Cordioli, Aristides. Manual de terapia cognitivo-comportamental para o transtorno obsessivo-compulsivo, p. 204.

[16]Cordioli, Aristides. Manual de terapia cognitivo-comportamental para o transtorno obsessivo-compulsivo, p. 55.

[17]Cordioli, Aristides. Manual de terapia cognitivo-comportamental para o transtorno obsessivo-compulsivo, p. 79.

[18] Silva, Ana Beatriz Barbosa. Mentes e manias, p. 102.

[19]Cordioli, Aristides. Manual de terapia cognitivo-comportamental para o transtorno obsessivo-compulsivo, p. 236 e seguintes.

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